Deus que me livre de me tornar uma dessas beatas chatas,
que ficam empurrando goela abaixo. Até porque, se existe um Deus onipresente e
onipotente e existe quem não acredite nele, é porque Ele permite (e meu São
Tomás de Aquino que não me deixa mentir quando disse que Deus nos deu o livre
arbítrio).
Houve um tempo em que mostrar eu tem uma religião era uma
forma de se auto-afirmar, de dizer que você era legal porque tinha um Deus no
coração. Isso te colocava com um pé no céu enquanto o resto dos mundanos – coitados!
– estariam condenados ao mármore do inferno.
Mas agora a coisa o mudou, e as redes sociais estão aí
pra mostrar isso. O bacana é ser ateu, é mostrar pra todo mundo que você não
acredita em Deus. E se achar por isso. O ateu é aquele cara que não se ilude
com “contos de fadas”, que acredita no preto no branco. O corajoso, o que
acredita na ciência. E nessa brincadeira, o bacana é ficar divulgando isso a
torto e a direito no facebook (porque nunca ficou tão importante mostrar mais
do eu praticar com essa ferramenta), tirando sarro com os religiosos,
ironizando, quase o chamando de imbecis e fanáticos. Ridicularizando as fés e
os dogmas, como se ter uma religião te colocasse em um patamar inferior.
Olhe, eu não sou nenhum exemplo de religiosa, não. Tive
formação católica, fiz batismo e crisma, tudo como manda o figurino. Mas toda
essa mistura religiosa me deixa confusa e me levou a crer que algo existe no
plano espiritual – tenho fé que sim! Mas minha pequenez não me permite saber o
que é. E como bom ser humano que vive em sociedade e pensa no bem comum, eu
tento seguir o princípio básico de cultivar boas relações e respeitar o espaço
alheio, e isso inclui aa fé. Não me importa francamente se você é do candomblé
ou católico, se dança num terreiro de macumba toda sexta-feira ou se vai ao
culto de saia longa com a família ou recebe espíritos numa mesa de ouija,
tampouco se você é muçulmano e tem quatro mulheres desde que haja respeito
nessa relação e todos estejam felizes com isso. Só não me venha me
obrigar a fazer o mesmo ou me olhar torto pela minha fé indefinida. Ou até
porque gosto de ir a festas a aproveitar as alegrias mundanas, porque
afinal é esse mundo que existe. A régua que me regula é a régua do que eu acho
certo e que não faz mal a ninguém. Se você propaga que expõe seu ateísmo e
critica a religião porque “os religiosos é que não respeitam o seu espaço”, meu
amigo, você está fazendo isso muito errado.
Não digo que ateísmo é o novo in porque acho que é só uma
moda. Ou como muitos religiosos dizem, “aaaah, só é ateu até a hora de morrer,
quando tá morrendo pede logo ajuda a Deus”. Sempre existiram ateus, que
acreditam que de fato do pó viemos e ao pó retornaremos. Mas de repente virou
bonito dizer que é ateu aos quatro ventos e debochar das religiões. Ter
religião para esses é careta, gente que não vive. Religião para estes é coisa
da Idade Média e é incompatível com os dias atuais.
Ora, estes que me perdoem, mas em pleno século XXI a
religião serve de motor para quantos? Quantas pessoas não escaparam de uma
depressão ao perder seu ente querido ao acreditar que ele continua ali, do seu
lado, se fazendo presente em um plano espiritual e que está em paz? Essa
necessidade humana é bastante atual e se justifica. A vida é dura e cada um
sabe o que precisa para se confortar. Não dá para argumentar como muitos dizem
que não tem como provar a existência de Deus. Também não dá para provar a
ausência. Religião é fé, e a fé vem de cada um ou não. Religião não é ciência,
não dá para querer provar religião usando método empírico nem medição de nada.
Claro que tem a ver com a cultura e com o meio que você vive, mas isso não
significa que é meramente isso. Eu mal entendo do plano terreno, quem sou eu
para ter a prepotência de entender de outro?
Não venha ser, por favor, o ateu Testemunha de Jeová que
bate na minha porta às 7h da manhã quando estou ocupada e fica me empurrando
papelzinho e lendo versículo da Bíblia (tenho uma casa, sou alfabetizada, logo
posso ler se eu quiser). Nem aquele religioso que ficou me regulando porque eu
estava de calça jeans e tomo cerveja. Antes seja o evangélico Instituto
Manassés que, embora encha o saco na minha viagem de ônibus, mas que pelo menos
está vendendo caneta para ajudar viciados em drogas que querem se recuperar.
Não me venha ser o ateu que fica dizendo que é fofinho acreditar na “lenda” de
Jesus como se fossem imbecis. Seja aquele ateu que vai sentar comigo numa mesa
de bar e ter uma conversa interessante sobre filosofia. Seja aquele que
independente da fé ou da falta dela respeita os outros. Ah, Deus que me livre,
da intolerância! Saravá e bate na madeira!!!!

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